terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Renato Borghetti




Pense bem e me responda: Quantos artistas gaúchos estão indo para o vigésimo primeiro disco, venderam centenas de milhares de cópias e são não só conhecidos como reconhecidos nacionalmente? Que se saiba, talvez Elis. Certamente, Renato Borghetti. O cara toca desde os 10 anos de idade, quando ganhou sua primeira gaitinha do pai, Rodi Pedro Borghetti, na época patrão do CTG 35. Cinco anos depois, o rapazote de 15 anos já era atração turística do CTG. Com 16 anos, subia profissionalmente a um palco pela primeira vez. O palco, no caso, era de um dos tantos festivais nativistas que efervesiam no Rio Grandedos anos 80.

E foi justamente neles que Renato primeiro fez sua fama. Tocava como um possuído, o que causava ainda maior impressão em quem conhecia as imensas limitações do seu instrumento, a gaita-ponto.

Além disso - e esse ponto foi importante - era (e é) uma figura fascinante: alto, cabeludo, tímido e dono de uma beleza encantadora pras moças que conseguissem divisar alguma coisa debaixo daquele chapéu invariavelmente inclinado sobre seu rosto. Isso, somado às bombachas surradas e às indefectíveis alpargatas de corda, construía uma figura mista de roqueiro e gaudério, tão autêntica que demolia a resistência de eventuais inimigos vindos de ambas as frentes. O primeiro disco foi gravado de favor, em madrugadas ociosas de um estúdio local. Quando saiu, em 1984, ninguém imaginaria que ia vender mais que mil cópias. Vendeu mais de 100 mil.

Transformando Borghetti não só num fenômeno como também no primeiro disco de ouro conseguido pela música instrumental brasileira . Relançado em CD, caminha pra outro recorde: 250 mil cópias e disco de platina. O que havia ali era uma música ainda muito tradicional - principalmente se comparada a seus lançamentos posteriores - e com uma formação também bastante careta. O diferencial estava, realmente, na paixão e no fogo que faiscava na gaita do ainda quase garoto. Foi o que viu o produtor Ayrton dos Anjos, que convenceu a RBS a lançar o trabalho pelo seu iniciante selo RBS Discos. Estava fazendo história - fato, aliás, várias vezes comum na carreira de Ayrton, o popular Patinete. A partir de então, se nunca repetiu a vendagem do primeiro disco, o prestígio e o renome de Renato só tem crescido.

Alternando trabalhos mais simples e gauchescos com momentos de maior sofisticação e acenos para o jazz e a música erudita, o sujeito tem sabido se cercar dos melhores músicos do Estado, mas sem nunca perder a rédea do que quer, e buscando sempre isso com a maior clareza. Já na década de 80, depois de perder a conta dos prêmios ganhos em festivais, deu canjas com gente como Leon Russel e Edgar Winter, arrebentou no Free Jazz Festival e fez shows em cidades que vão de Munique e Stuttgart a Maceió. Entra a década de 90 tocando no S.O.B.'s de Nova York e estabelecendo uma frutífera parceria com a Orquestra de Câmara do Teatro São Pedro, que logo geraria novos trabalhos nessa fronteira erudito-folclórica com a OSPA (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre), a Orquestra Unisinos e orquestras de todo o Brasil. Em 91, as duas primeiras mostra definitivas de reconhecimento: o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte pelo melhor disco do ano na categoria Regional e o convite para integrar o Projeto Asa Branca, com quem vai seguir fazendo shows por toda a década, ao lado de Sivuca, Dominguinhos, Elba Ramalho, Alceu Valença entre outros. Entre 95 e 96, já respeitadíssimo, toca por todo o país como representante sulista no projeto Brasil Musical, de igual para igual com gente como Paulo Moura, Hermeto Pascoal, Wagner Tiso e Egberto Gismonti.